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21.9.17

O Caibalion: uma nova tradução

O próximo livro das Edições Textos para Reflexão será a tradução do maior clássico do hermetismo moderno, O Caibalion, uma obra fundamental para qualquer estudante do ocultismo.

Após haver adquirido experiência na tradução de grandes clássicos da espiritualidade, como o Bhagavad Gita e o Tao Te Ching, ambos traduzidos a partir de versões inglesas, desta vez poderei traduzir diretamente do original em inglês!

"Mas O Caibalion não era uma obra lendária do antigo Egito, como pode ter sido escrita em inglês?" Bem, na verdade se trata justamente de uma compilação de espiritualistas modernos que traz alguns axiomas e princípios herméticos do Caibalion original, devidamente comentados e explicados em detalhes. Abaixo lhes trago um dos textos introdutórios da edição, que fala sobre os seus supostos autores, já que a obra foi assinada somente por um pseudônimo (e logo após, a capa!):

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Uma nota acerca da autoria desta obra

O Caibalion foi publicado pela primeira vez em 1908 na língua inglesa pela Yogi Society, ligada a um templo maçônico de Chicago, nos EUA. A obra é anônima, assinada somente pelo codinome ou pseudônimo “Três Iniciados”.

No entanto, existem indícios de que o livro esteja ligado ao Movimento Novo Pensamento, que surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX. Esse movimento era formado por filósofos, espiritualistas, escritores e pessoas que compartilhavam crenças e participavam de estudos metafísicos associados a temas diversos da espiritualidade e da parapsicologia.

Das diversas teorias ligadas à autoria do Caibalion a mais aceita é a de que o livro foi escrito pelo espiritualista americano William Walker Atksinson (mais conhecido como Yogi Ramacharaka, e também popular por usar diversos pseudônimos em suas obras) em parceria com outros estudiosos como o maçom Paul Foster Case ou a teosofista Mabel Collins. Em todo caso, a verdade é que nunca saberemos ao certo quantos foram os colaboradores da obra, e quais os seus nomes, principalmente porque, sejam quem forem, simplesmente optaram pelo anonimato.

A mim, tradutor e editor desta obra rara, me parece que o principal objetivo dos autores originais não era adicionar “mistério” ao livro ao ocultarem seus nomes reais, mas tanto pelo contrário: a sua intenção era focar toda luz a obra em si, as palavras de Hermes Trimegisto, e não a quem as compilou e adaptou para esta era moderna.

Na elaboração da capa, chegamos a pensar em inserir a assinatura, “Três Iniciados”, mas depois optamos por incluir no lugar um subtítulo mais indicado para a sua real função: “uma iniciação ao hermetismo”.

Sim, pois é justamente disto, de uma iniciação, que esta obra se trata para todos aqueles que ainda a desconhecem. Se for o seu caso, respire fundo, relaxe, medite, dê graças a sua divindade (ou a natureza, no caso de não ter uma), e acompanhe com atenção a sabedoria que, com muito custo e muito sangue, venceu a séculos de ignorância, e conseguiu chegar aqui, neste momento, em suas mãos.

A luz foi criada para ser refletida!

Rafael Arrais

Em breve... tanto em e-book quanto versão impressa!

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Imagem da capa derivada de gravura de autoria anônima, vista primeiramente em um livro de Camille Flammarion intitulado L’atmosphère: météorologie populaire (1888)

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18.9.17

A filosofia para viver bem (parte 2)

« continuando da parte 1

2. Só sei que nada sei, e nem mesmo disto estou certo

Além do estoicismo e do epicurismo, existiu uma terceira escola que por muitos séculos foi ignorada na tradição clássica, até ser recuperada no Renascimento por Michel de Montaigne – que talvez pudesse ser considerado um praticante de todas as três doutrinas.

Trata-se do ceticismo.

Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, o ceticismo filosófico não se refere apenas aos ateus, cientistas e acadêmicos materialistas. Apesar de muitos deles se considerarem céticos, a filosofia cética vai para além disso.

A escola filosófica do ceticismo iniciou com Pirro, muitos séculos antes de Cristo. Pirro entendia que era impossível conhecer a real natureza das coisas.

O que é belo? O que é bom? O que é verdadeiro? Pirro refletiu muito sobre essas questões, e após viajar para outros locais, percebeu que aquilo que é certo num lugar ou para uma pessoa, pode ser errado para outra. E vice-versa. Nossos juízos tratam-se, acima de tudo, de construções que os homens fazem sobre o mundo. E todos os homens parecem igualmente possuírem argumentos válidos para acreditar naquilo que pensam.

Na impossibilidade de dizer o que é verdadeiro, Pirro entendia que o filósofo deveria evitar fazer juízos sobre o mundo, e através da suspensão deles (epokhe), se tornar indiferente às questões que não são realmente importantes. Afinal, é inútil discutir com seu amigo quem é a atriz mais bonita de Hollywood ou quem vai ser campeão da Liga dos Campeões.

Indiferente ao que é duvidoso, o homem alcança a ataraxia, não se perturbando com aquilo que ele não pode ter certeza. Como dizer quem é a mais bela se cada um possui seu próprio critério de beleza? Como saber quem será o campeão do futebol se muitas coisas ainda podem acontecer no futuro e mudar nossas previsões?

É importante dizer que os céticos não são relativistas em relação à verdade. Enquanto os dogmáticos acreditam que a verdade é uma só e conhecida, os relativistas defendem que a verdade é múltipla, possuindo muitas interpretações. Os céticos, por sua vez, entendem que tanto os dogmáticos quanto os relativistas estão enganados: a verdade é impossível de ser conhecida, seja ela única, múltipla ou mesmo inexistente.

Quando Sócrates diz “só sei que nada sei”, Pirro complementa “e nem mesmo disto estou certo”.

Os céticos estão sempre recorrendo à dúvida para colocar o que acreditamos em questão. Isto não significa que não podemos acreditar em determinadas coisas. O conselho cético é apenas para não se levar tão a sério.

Preocupamos-nos excessivamente com coisas das quais não temos realmente como saber. Será que vamos encontrar o amor? Conseguirei passar na prova? Será que eu sou belo aos olhos dos outros? Ao desacreditarem num juízo absoluto sobre esses assuntos, os céticos eram despreocupadamente abertos a todo tipo de situação que a vida pudesse oferecer. Aconteça o que acontecer.

Pirro não se preocupava com os erros. Encarava os enganos com a mesma leveza que os acertos.

Os filósofos encontraram no ceticismo uma espécie de terapia. Diante dos problemas da vida, recorriam à epokhe. Quando não sabemos exatamente o que é certo ou errado, ou nos preocupamos com o que pode acontecer no futuro, a suspensão de juízo nos liberta da necessidade de encontrar uma resposta clara para tudo. Há coisas que talvez estejam para além da nossa compreensão ou controle.

A impossibilidade de um conhecimento objetivo sobre qualquer assunto, ou mesmo nossa tentativa vã de prever o futuro, revela que nossas reações são exageradas na maior parte das vezes. A ataraxia dos céticos conduzia a uma vida despreocupada.

Parece estranho pensar que não saber ou não possuir uma resposta exata para algo seja tão tranquilo assim. Afinal, quando somos acometidos pela dúvida, pela incerteza, geralmente nos sentimos angustiados. Quando não sabemos se nosso amor será correspondido, se nossa carreira profissional está crescendo, ou se as pessoas pensam corretamente sobre nós.

Por que os céticos encontraram a ataraxia justamente em algo que parece nos incomodar tanto: a dúvida?

Talvez porque ainda sejamos pouco amigos da dúvida. Diferente de Michel de Montaigne.

Nos seus Ensaios, Montaigne questionava tudo. Colocava em dúvida os costumes de seu país, de seus amigos, até de si mesmo. Sobre qualquer assunto ele ponderava.

Ao se questionar se preferia estar sozinho ou em companhia, ele dizia primeiro que era uma pessoa muito social, e gostava de conversar e estar feliz com seus amigos. Depois lembrava que muitas vezes sentia a necessidade de estar sozinho, pois nem sempre podia ser tão compreendido pelas pessoas como quando estava refletindo intimamente em suas caminhadas. Diria então que ora preferia estar com amigos, ora sozinho. Finalmente, revelaria ainda assim não ter muita certeza sobre isso.

Montaigne duvidava que o homem fosse tão racional e elevado como as pessoas acreditavam. Na realidade, somos imperfeitos, confusos, contraditórios, ambivalentes, por vezes ridículos. E não há nenhum problema nisso.

A vida para Montaigne (assim como para Nietzsche) devia ser vivida através do amor fati: as coisas são como são, e não cabe a nós mudá-las, mas aceitá-las com alegria. Talvez o mundo seja estranho e imperfeito, por vezes injusto e incompreensível, mas de nada adianta nos arrependermos de algo. A vida nos conduziu exatamente ao ponto que estamos hoje, e sem dúvida há inúmeras razões para amá-la assim.

Mas um homem não se deu muito bem com um mundo de dúvidas... Dele falaremos no próximo texto.

» Continua em breve

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Estátua de Montaigne em La Sorbona, Paris)

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12.9.17

A importância do vazio

Nunca fui exatamente um grande fã de desenhos japoneses, mas isto durou até assistir ao filme que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2003, A Viagem de Chihiro. Desde então me tornei mais um dos fiéis seguidores do grandioso Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, a empresa que ele criou para transformar em desenho sua obra-prima dos quadrinhos, Nausicaä do Vale do Vento, que por acaso é também uma das melhores histórias em quadrinhos que li na vida (e li muitas, desde criança).

Após Nausicaä felizmente se seguiram muitas obras grandiosas, onde além de Chihiro, ainda se contam Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke, O Serviço de Entregas da Kiki e muitas outras, além dos desenhos da Ghibli que não contaram com a assinatura de Miyazaki na direção, mas que também seguem a mesma filosofia.

Há algo de profundamente misterioso em boa parte dos filmes da Ghibli, e nem sempre é fácil identificar do que exatamente se trata este "mistério". Sem dúvida, em muitos desenhos há menção a mitologia japonesa, principalmente ao xintoísmo e a sua crença de que espíritos habitam toda a parte da natureza. Há desenhos onde sonhos se tornam realidade, e onde a realidade é tão fantástica que mais parece um sonho. Ao mesmo tempo, há também uma perene conexão com a realidade humana, com nossa essência mais profunda, algo que Miyazaki herdou do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, do qual é fã confesso. Mas ainda nos faltam palavras para descrever melhor do que se trata...

Felizmente para nós, Max Valarezo e o pessoal do canal EntrePlanos no YouTube nos trazem um belo vídeo onde este "mistério" é, quem sabe, melhor vislumbrado. Com vocês, Ma, ou "a importância do vazio":

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Crédito da imagem: Studio Ghibli/Meu Amigo Totoro

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