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13.4.12

Comentário: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

Comentário das respostas da pergunta “o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Primeiramente, é oportuno deixar claro: a pergunta “curta”, que serviu como título do post original (e deste comentário) deve ser analisada dentro do contexto em que foi colocada, considerando-se todos os 4 parágrafos – ou seja, a pergunta completa (“longa”). Estritamente falando, a ciência não têm absolutamente nada a ganhar, nem a perder, com a espiritualidade. Isto porque a ciência é tão somente o conhecimento da realidade detectável, um instrumento do pensar, com o qual analisamos os mecanismos da natureza. Embora possamos debater o que significou a palavra “ciência” em seus primórdios, acredito que hoje não há como fugir desse conceito moderno. A ciência não é, portanto, ideologia: não é teísta nem ateísta, materialista ou espiritualista, monista ou dualista, a ciência não é nem mesmo moral ou imoral. No entanto, os cientistas, eles sim, podem ser tudo isso... E é exatamente nesse contexto que eu coloquei a pergunta final, que talvez tivesse ficado melhor como “o que os cientistas têm a ganhar com a espiritualidade”, mas eu não queria separar os dois conceitos. Isto, pois, realmente existiram, e existem, grandes cientistas plenos de espiritualidade:

“O Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será. A nossa contemplação do Cosmos mexe conosco. Dá um calafrio na espinha, um bolo na voz. Uma sensação de desmaio, como uma lembrança distante de cair de uma grande altura. Sabemos que estamos abordando o maior de todos os mistérios... O tamanho e a idade do Cosmos estão além do entendimento humano comum. Perdido em algum lugar entre a imensidão e a eternidade está nosso minúsculo lar planetário, a Terra. Pela primeira vez temos o poder de decidir o destino de nosso planeta, e de nós mesmos. É um momento de grande perigo, mas a nossa espécie é jovem, curiosa e corajosa, e demonstra muito potencial... Nos últimos milênios nós fizemos as descobertas mais surpreendentes e inesperadas sobre o Cosmos e sobre o nosso lugar nele. Eu acredito que nosso futuro depende, e muito, de nós entendermos bem esse Cosmos, no qual flutuamos como um grão de poeira no céu matinal.

[...] Nós queremos perseguir a verdade, não importa onde ela nos leve. Mas, para achar a verdade, precisamos tanto de imaginação quanto de ceticismo. Não vamos ter medo de especular, mas vamos ter cuidado para distinguir a especulação do fato. O Cosmos é ilimitado de verdades elegantes, de inter-relacionamentos delicados do incrível mecanismo da natureza. A superfície da Terra é o litoral do oceano cósmico... Neste litoral, nós aprendemos a maior parte do que sabemos. Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso, talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo”.

Assim, com esses dois parágrafos (eu pulei uma parte não tão importante), Carl Sagan, grande cientista e astrônomo americano, celebrado tanto por seu ceticismo quanto por seu humanismo, iniciou o primeiro capítulo da já lendária série de TV Cosmos, provavelmente o mais grandioso material em vídeo de divulgação científica, assim como um grande documentário acerca da história, da mitologia e das religiões humanas. Apesar de ter sido cético, agnóstico, e avesso às teorias espiritualistas em geral, Sagan jamais se absteve de estudar profundamente as religiões, a espiritualidade humana... E, em as tendo conhecido tão profundamente (ao menos na teoria, embora obviamente não na experiência religiosa em si), Sagan não somente as criticava com propriedade, onde era devido, como se abstinha de condenar a priori aos próprios religiosos. Sagan não era um simpatizante de religiosos por medo de sua ira (ou da “ira divina”), mas porque efetivamente os respeitava, apesar de discordar deles em inúmeros pontos.

***

Recentemente o Superior Tribunal Federal (STF) no Brasil votou publicamente acerca da proposta de lei que legaliza o aborto de fetos anencéfalos. O que era para ser um debate estritamente jurídico, e de interpretação da Constituição Federal, acabou ganhando as manchetes, como era de se esperar, como uma espécie de “embate feroz” entre eclesiásticos e antieclesiásticos, como se a decisão final fosse uma espécie de “vitória” para um ou ouro lado.

Uma rápida pesquisa online nos traz alguns pontos fundamentais da questão: anencéfalo não é um feto que nascerá sem cérebro, mas com a má formação do mesmo, muitas vezes decorrente de acrania, que é a má formação do crânio. Em muitos casos o anencéfalo nasce realmente sem cérebro algum, mas em tantos outros há um cérebro presente, embora mal formado. Em todo caso, a imensa maioria dos anencéfalos têm vida curta, de algumas horas ou minutos, isto quando já não nascem mortos. Apesar disso, em alguns casos raríssimos, alguns no Brasil, anencéfalos sobreviveram por 20 meses e até mais.

Esse tipo de debate é polêmico, mas necessário. Não há “saídas simples” para ele. O aborto de um anencéfalo é assassinato? Sim, sem dúvida. O risco de saúde que a gestação de um anencéfalo gera para a mãe vale o prolongamento da gestação natural, sem aborto? Se a mãe se sente ameaçada, e se não quer seguir com a gestação, provavelmente não. As mães que se comprometem a arriscar-se para parir um bebê que irá requerer cuidados especiais, e que provavelmente não irá sobreviver por muito tempo, são “loucas”? Claro que não, são dignas de palmas, na realidade. Porém, será que tais “mães santas” são a maioria, ou a esmagadora minoria?

Todas essas questões entraram na pauta, e não eram propriamente questões religiosas ou científicas, mas questões morais, questões que tangem a ética de toda uma sociedade. Por isso o debate é importante, para que tais decisões polêmicas não se restrinjam a dados técnicos de um cientista, mas que tampouco se restrinjam ao dogma de uma doutrina religiosa em vigor. Isso, pois o Estado pode até ser laico, mas nós não somos. A ciência pode ser amoral, mas os cientistas, e os não cientistas, jamais. Mesmo aqueles que não gostam de admitir sempre tomarão algum partido, mesmo que guardem para si, mesmo que se abstenham de opinar. Ou ainda mesmo que optem por simplesmente ignorar a questão – isso não seria amoralidade, mas talvez pura ignorância, pois queiramos ou não, somos animais sociais, e essas questões devem sim entrar em pauta, na nossa pauta.

Mas é então que a educação entra em questão. Um povo sem educação, sem conhecimento, terá enormes dificuldades em debater, em opinar, sobre o que ignoram e não sabem o mínimo (nem uma pesquisa online de 15 minutos). E, ao contrário do que muitos antieclesiásticos defendem, nem sempre a ignorância cabe apenas aos eclesiásticos, teoricamente os “pobres e de educação inferior”. É exatamente por isso que o radical eclesiástico que acusa um ministro do STF, que votou a favor da legalização, de ser “um assassino maldito”, não está muito distante da radical “feminista” e antieclesiástica que acusa os críticos da legalização de serem “ovelhas de uma doutrina religiosa machista que impede a mulher de ter liberdade total sobre o que faz ou deixa de fazer com seu próprio corpo”... Ora, ambos são ignorantes não somente das leis, da vida em sociedade, como da própria ciência, e da própria espiritualidade.

Pois uma das coisas que a ciência nos ensina é que devemos conhecer ao máximo o mecanismo da natureza, antes que possamos elaborar teorias acerca de como devemos ou não lidar com ela. E a espiritualidade, talvez acima de tudo, nos ensina a respeitar e considerar a opinião dos outros. Nesse caso, a opinião dos outros é o que ajuda a formar as próprias leis de nossa sociedade, pois não moramos sós neste país ou neste globo, e nem está escrito em lugar algum na natureza que uns são “mais especiais” do que outros. E, se algum Manual de Verdades Absolutas disse isso, há que se perguntar se não fomos nós que o interpretamos da maneira errada.

Muitas vezes, o eclesiástico radical que luta contra a legalização do aborto de anencéfalos é o mesmo que, muito naturalmente, recomenda um “bombardeio as cracolândias” para que nos livremos de uma vez dos “malditos viciados”. É preciso ter muito cuidado quando verificamos que, para alguém, uma alma têm um certo valor numa ocasião, e outro valor completamente diverso, noutra... Enfim, esperemos com fé que os moderados, os de bom senso, os amistosos, os amigáveis e amorosos, herdem esta terra.

***

Como vários autores relatam benefícios com os tratamentos espirituais, é fundamental um melhor conhecimento dos mecanismos e eficácia das curas espirituais. Isso possibilitaria a adaptação das formas úteis como terapias complementares à medicina ocidental, bem como desencorajaria os procedimentos danosos ou inúteis. A discussão séria de um tema não requer que compartilhemos as crenças envolvidas, mas que tomemos suas implicações seriamente e não subestimemos as razões pelas quais tantas pessoas se envolvem. Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina. (Trecho do relatório final do estudo da Associação Médica Brasileira sobre as cirurgias espirituais do médium João de Deus)

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas. (Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios)


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Crédito da imagem: Martin Puddy/Corbis

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4 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Sou totalmente a favor do aborto, em qualquer situação.
Acho que a igreja nao tinha que dar opinião em problemas politicos, tinham que cuidar de seu rebanho dentro de sua igreja e pronto. Por isso o mundo ainda é todo atrasado, por causa e simplismente da igreja.

16/4/12 12:31  
Blogger raph disse...

O problema não é ser contra ou a favor do aborto, mas precisamente justificar a opinião sempre com base numa posição eclesiástica ou antieclesiástica, e não numa posição puramente moral.

Eu conheço ateus e anarquistas, totalmente contra a Igreja em inúmeros aspectos, mas que são contra o aborto (de feto saudável, pelo menos), e o são exatamente por valorizarem a vida, não de um ponto de vista eclesiástico ou antieclesiástico, mas puramente moral e humanista.

Abs
raph

16/4/12 14:29  
Anonymous outro anonimo disse...

O grande problema que vejo nos dias atuais com relação ao aborto é: temos preservativo, pílula anticoncepcional (claro que tem que saber usar) e até pílula do dia-seguinte (se escorregar, tem como remediar), não dá para evitar uma morte de um inocente e um trauma para a mãe? A criminalização acho problemática, mas é diferente de liberação. Porém, nos casos realmente importantes, a legislação já libera (estupro, etc). Agora, concordo com o primeiro anonimo: a religião deve tirar suas "patinhas de lobo" da política. Em um Estado Laico é inconcebível uma religião "meter o bedelho". Claro que na política, teremos religiosos, mas esses devem se embasar no bom senso para legislar e não legislar em prol de seu "clubinho". A decisão deve ser vista como do deputado X ou Y e não da bancada evangélica, católica, talibã, etc... Ainda penso que é melhor morrer que vir ao mundo por alguém que não lhe desejou e vai lhe tratar feito lixo, mas enfim, porque as benditas pessoas não previnem o indesejável?!
A discussão é muito mais ampla que ser a favor ou contra e passa primeiro por planejamento familiar, métodos anti-concepcionais, etc. Como na medicina, a prevenção é o melhor a ser feito...

16/4/12 19:28  
Blogger raph disse...

A prevenção é realmente o melhor caminho, pelo menos para quem não deseja ter filhos. Ser contra o controle de natalidade é muitas vezes ser a favor do caos social, embora muitos não se deem conta disso. Claro que, numa sociedade ideal, existiriam organizações sociais para dar conta da educação e sustento dos órfãos até a idade adulta... Mas esta sociedade ideal, se existe, está presente em pouquíssimos países do mundo.

Abs
raph

16/4/12 22:28  

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