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30.9.15

Nós somos o chão; nós somos as estrelas

Geralmente não fazemos isso por aqui, mas este artigo recém publicado do excelente Alexandre Versignassi (redator-chefe da Superinteressante) é tão bom que sentimos que ele merecia ficar guardado aqui com a gente também... O título original é Muito além de Marte


Um bebê recém-nascido não sabe que é um indivíduo. Acha que ele e a mãe formam uma entidade única. Talvez ache até que ele, a mãe e o mundo sejam uma coisa só.

Mas antes de seguir com esse raciocínio, queria passar a palavra para alguém mais qualificado que eu, o Richard Dawkins. “Vamos imaginar que o surgimento de vida em algum planeta seja algo estupidamente improvável”, ele me disse numa entrevista recente. “Mais improvável até do que você tirar uma quadra de ases num jogo de cartas, e todo mundo na mesa também sair com quadras. Mas sabe de uma coisa? Mesmo se a vida for algo tão difícil de acontecer, ainda assim ela seria abundante no Universo”.

Dawkins, professor emérito de biologia em Oxford e reformulador do darwinismo, entende de vida. Mas nem ele nem ninguém tem como dizer se o fenômeno é corriqueiro no Cosmos ou se não, se trata-se de algo raríssimo, que só aconteceu na Terra, ou, dando uma chance ao acaso, que só apareceu em um a cada um bilhão de planetas Cosmos afora.

Um em um bilhão parece pouco. Só que é menos ainda. A probabilidade de você morrer atingido por um raio é de uma em 2 milhões. A de ganhar na Mega-Sena, uma em 50 milhões. Em outras palavras, uma chance em um bilhão é basicamente sinônimo de “impossível”.

Mas isso aqui na Terra. Porque no céu a história é outra. É que, se um em um bilhão é algo menor do que parece, o espaço sideral é maior. Bem maior do que parece. As estimativas mais humildes indicam que existem 10 trilhões de bilhões de estrelas no Universo observável (ou 1022 , o número 1 seguido de 22 zeros, caso você prefira uma notação mais científica). Um mundo assim, com 10.000.000.000.000.000.000.000 de sóis, destrói qualquer estatística. Assim: se a vida surgiu em um único planeta por sistema solar (como parece ter sido o caso neste sistema solar aqui), e só um em cada bilhão de sistemas solares teve essa sorte, existiriam dez trilhões de planetas com vida.

Mais: se entre esses supostos planetas com vida só um em um milhão abrigar seres inteligentes, teríamos dez milhões de civilizações sobre as nossas cabeças. Como o Dawkins mesmo disse naquela entrevista: “Nossos cérebros não sabem lidar com grandezas na ordem de bilhões e bilhões”.

Mas tem outra coisa com a qual o nosso cérebro não sabe lidar: o próprio conceito de “vida”. Por instinto, nós teimamos em achar que somos entidades à parte no Universo. Que nós estamos aqui, e o Universo está “lá fora”. E aí que a gente volta aos bebês do primeiro parágrafo. Nos primeiros meses de vida, passamos a entender que somos indivíduos, entidades únicas, apartadas das nossas mães, e do mundo, e do Universo.

Ilusão. Os átomos que formam o seu corpo sempre estiveram aqui na Terra. E vão continuar por aqui, independentemente do que você faça com eles até o dia que o seu coração parar de bater. O autor do Gênesis traduziu bem essa ideia, na cena em que Deus diz a Adão que ele terá de trabalhar pesado, e suar para que a terra produza algum alimento “até que você, Adão, volte para a terra, pois do pó você foi feito, e em pó irá se transformar” (Gen. 3:19). Três mil anos depois, o astrônomo britânico Martin Rees refinou o raciocínio. Diante da descoberta de que todos os átomos mais complexos que o hidrogênio e o hélio foram forjados no interior de estrelas, ele escreveu que “somos todos, literalmente, cinzas de estrelas mortas há muito tempo”.

Logo, nós somos o chão. Nós somos as estrelas. Somos o espaço e o tempo. E a vida consciente talvez seja o Universo se olhando no espelho, e descobrindo que ele próprio é um indivíduo.

***

» Acompanhe Crash, o blog de Alexandre Versignassi

Crédito da imagem: 2001 - Uma Odisseia no Espaço/Divulgação

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28.9.15

Lançamento: A educação de Casanova

Neste conto em 10 capítulos, o autor nos convida a uma viagem por Istambul (Turquia), Las Vegas (EUA), Rio de Janeiro (Brasil) e, sobretudo, pelas profundezas da alma e da sexualidade humana. Uma história para amantes, amados, e para quem se dedica a amar mais e melhor a cada dia, um pensamento de cada vez...

Um e-book recomendado para maiores de 16 anos, que pode ser baixado ou lido gratuitamente nas seguintes lojas (em breve, também na Amazon):

Baixar grátis (Kobo) Ler online (Google Livros)

***

Eu considero este conto uma das melhores coisas que já escrevi, inclusive porque a inspiração para escrevê-lo surgiu aos poucos e de forma um tanto estranha. Primeiramente, me pareceu que se trataria de um conto erótico, e eu relutei por muito tempo em iniciá-lo... Quando finalmente comecei, percebi que seria uma aventura muito mais profunda do que havia imaginado de início.

Cada um dos três trechos em cidades diversas, que compõem juntos os 10 capítulos do conto, foi escrito em momentos diferentes, com intervalos de meses entre eles. No final, tudo acabou fazendo algum sentido, mas quando iniciei não fazia a menor ideia de para onde a história iria se encaminhar. Acredito que boa parte da "estranheza" do texto se refira também ao meu próprio sentimento de estranheza ante a sua temática e a inspiração que me impeliu a escrevê-lo.

É, enfim, um conto que superficialmente não tem muito a ver com a maior parte do que escrevo aqui no blog, mas se puderem mergulhar dentro dele, verão que acaba tendo tudo a ver... Boa leitura!

raph


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24.9.15

Veja o amor (Life & Death)

Como alguns devem saber, sou um amante dos poemas de Rumi, e já traduzi diversos deles. Abaixo, segue uma nova tradução, que surgiu através da sugestão de uma leitora [1]:


[Veja o amor]

Veja o amor...
Veja como se entrelaça
com aquele caído em sua rede.

Veja o espírito...
Veja como se funde a terra
trazendo a nova vida.

Ora, por que você está tão ocupado
com isto, ou aquilo,
com o que foi bom ou ruim?
Presta atenção em como as coisas se misturam,
em como tudo se harmoniza.

Por que discutir sobre tudo,
o que é conhecido, e o que não é?
Veja como o conhecido se mescla
ao desconhecido.

Por que imaginar esta vida e a próxima
como algo separado,
quando uma nasce da outra?

Veja seu coração e sua língua...
Uma percebe tudo como surda muda,
o outro se comunica em símbolos e sinais.

Veja a água e o fogo,
a terra e o vento,
veja amigos e inimigos,
todos de uma só vez.

O lobo e o cordeiro,
o leão e o cervo,
vagando distantes pela terra
e, ainda assim, juntos.

Veja a unidade de tudo isso:
A primavera e o inverno
manifestos no mesmo equinócio.

Vocês também devem se misturar, meus amigos,
pois a terra e o céu
estão mesclados
somente para que nós possamos viver.

Seja como a cana de açúcar,
doce e silenciosa,
não se deixe misturar
às palavras amargas.

O meu Amado cresce
em meu próprio coração...
Há união maior que essa?


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Rafael Arrais, a partir da versão inglesa de Nader Khalili)

***

Obs.: Este poema também é conhecido pelo título Life & Death (Vida e Morte), e ficou famoso por ter alguns trechos citados no filme Drácula: A história nunca contada.

[1] Veja também o livro Rumi – A dança da alma, com minhas traduções e comentários de alguns dos mais belos poemas de Rumi.

Crédito da imagem: David Uzochukwu

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18.9.15

Lançamento: Bhagavad Gita

Após quase 9 meses de intenso trabalho de tradução, as Edições Textos para Reflexão têm o prazer de lançar um dos maiores livros sagrados do mundo, o Bhagavad Gita, a sublime canção da Grande Índia.

Para tal empreitada, Rafael Arrais usou como base a tradução clássica do sânscrito para o inglês de Sir Edwin Arnold (1885), conforme compilada pela American Gita Society. E, com a experiência de já haver traduzido o Tao Te Ching da versão inglesa de James Legge, além do Gitanjali de Tagore e do Profeta de Gibran, ambos diretamente do original em inglês, procurou trazer um resultado final ao mesmo tempo profundo e acessível, numa linguagem moderna, porém ancorada na essência ancestral da sabedoria hindu.

A edição digital e a impressa vêm rechadas de notas, incluindo muitas citações de célebres pensadores ocidentais simpáticos ao Gita, como Joseph Campbell e Arthur Schopenhauer. O nosso intuito é trazer a filosofia perene da antiga Índia para os dias atuais, pois que apesar de a guerra dos Kurus e dos Pândavas ter sido narrada há milênios, ela não deixa de estar sendo lutada ainda hoje, ainda neste momento, na alma de todos nós.

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***

À seguir, um trecho do Capítulo II - O conhecimento transcendental:

Os ensinamentos de Krishna começam pelo verdadeiro conhecimento da alma e do corpo

Lorde Krishna disse: Você se entristece por aqueles que não são dignos da sua tristeza, mas ainda assim suas palavras trazem grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior, mas são ainda insuficientes para satisfazer à mente interior. Os sábios, em realidade, não se deixam abater nem pelos vivos nem pelos mortos. (2.11)

Jamais houve um tempo em que todos esses reis, você, ou eu, não existíssemos; tampouco haverá algum tempo futuro em que deixaremos de existir. [1] (2.12)

Assim como a alma adquire um corpo de criança, um corpo de jovem e um corpo de velho durante sua vida, da mesma forma, a alma adquire outro corpo após a morte. Isto é muito claro para os sábios. (2.13)

Ao contato dos sentidos, as formas e objetos dão vasão a sensações de frio e calor, de dores e prazeres. Todas essas sensações são transitórias e impermanentes. Dessa forma, devemos aprender a suportá-las sem nos apegarmos a elas, ó Arjuna. (2.14)

Pois uma pessoa verdadeiramente calma e tranquila, que não se deixa afligir ou apegar por essas formas e objetos, e permanece sempre estável em meio às dores e aos prazeres, se torna apta a trilhar o caminho para a imortalidade. (2.15)

O Espírito é eterno, o corpo é transitório

O Espírito invisível (atma) é eterno, e o corpo visível é transitório. A realidade da relação entre ambos é certamente conhecida pelos sábios, que investigaram a si mesmos por um longo tempo, e finalmente chegaram a verdade sobre sua própria essência. (2.16)

O espírito que preenche todo este universo é indestrutível. Ele está em tudo e abarca a todas as coisas. Ninguém pode destruir o que é imperecível. (2.17)

Mas os corpos que abrigam momentaneamente o Espírito eterno, imutável e incompreensível, esses são perecíveis, ó Arjuna. Dessa forma, se prepara para a batalha! (2.18)

Aquele que pensa que o Espírito é um assassino se comporta como aquele que pensa que o Espírito pode ser assassinado, e ambos vivem na ignorância, pois o Espírito nem mata e nem pode ser morto. (2.19)

O Espírito jamais nasce ou, nalgum tempo, morre. Ele não vem à existência, nem cessa de existir. Ele é incriado, eterno, permanente e primordial. Quando o corpo perece ou é destruído, o Espírito perdura. (2.20)

Ó Arjuna, como pode uma pessoa que sabe que o Espírito é indestrutível, eterno, incriado e imutável, matar alguém, ou fazer com que qualquer um seja morto? (2.21)

A morte e a transmigração da alma

Assim como alguém veste uma nova roupa após se livrar da antiga, da mesma forma, a entidade viva da alma individual adquire novos corpos após descartar os antigos. [2] (2.22)

As armas não perfuram tal Espírito, o fogo não o queima, a água não o umedece, e o vento não o deixa seco. O Espírito não pode ser perfurado, queimado, umedecido ou ressecado. Ele é eterno e preenche a tudo o que há. Ele é imutável, permanente, o ancestral de todos. (2.23-24)

Nós sabemos que ele é inefável, incompreensível, incognoscível, que mora além das palavras e do intelecto. E, se você também sabe disso, não deve se deixar afetar pela tentação de tentar conceber o inconcebível. [3] (2.25)

E ainda, ó Arjuna, que você creia que a alma nasce e morre junto com o corpo, isso ainda não seria motivo para tamanha tristeza. Pois que a morte é algo certo para aquele que nasce, e o nascimento necessariamente antecede aquele que vive. Dessa forma, um deriva do outro, e ambos são inevitáveis. Ó príncipe, não se lamente em demasia sobre o que é inevitável. (2.26-27)

Todos os seres são imanifestos, invisíveis aos olhos do corpo, antes do nascimento e após a morte. O período de sua manifestação física é transitório, passageiro, e compreende tão somente uma única vida. Ante tal fato, o que há para nos afligir? (2.28)

***

[1] Conforme dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX: “O mito é algo que não existe, mas que existe sempre”.

[2] Conforme bem notou Arthur Schopenhauer, célebre filósofo alemão, em Da morte, metafísica do amor, do sofrimento do mundo (Ed. Martin Claret):

“Sobre a universalidade da crença na metempsicose [reencarnação], Obry nos diz, com razão, no seu excelente livro Du Nirvana indien, p.13: “Esta velha crença fez a volta ao mundo, e estava de tal modo expandida na alta antiguidade, que um douto anglicano a julgou sem pai, sem mãe, e sem genealogia”. Já ensinada nos Vedas, como em todos os livros sagrados da Índia, a metempsicose é, como se sabe, o núcleo do bramanismo e do budismo, e reina até hoje por toda a Ásia não conquistada pelo islamismo, isto é, em mais da metade do gênero humano, como a crença mais sólida, e como influência prática de uma força inimaginável. Ela foi também um elemento de fé dos egípcios (Heródoto, II, 123); Orfeu, Pitágoras e Platão a adotaram com entusiasmo, e os pitagóricos, sobretudo, a mantiveram firmemente. [...] Ela era também o fundamento das religiões dos druidas. [...] Mesmo entre os americanos (índios) e povos negros, a até mesmo entre os australianos (aborígenes), encontram-se traços dela.”

[3] Realmente se trata de um assunto complexo. Eu gosto muito da forma como John Galsworthy, escritor britânico, o resumiu: “As palavras são cascas de sentimento”. Mas, no que se refere a análise da transcendência dos mitos, talvez ninguém seja maior autoridade no tema, no Ocidente, do que Joseph Campbell. Permita-me citar uma de suas respostas a Bill Moyers em O Poder do Mito, onde ele falava sobre “a eternidade”:

“A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a ideia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na Índia, o deus que repousa em mim é chamado o “habitante” do corpo. Identificar-se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar-se com a divindade.
Ora, a eternidade está além de todas as categorias de pensamento. Este é um ponto fundamental em todas as grandes religiões do Oriente. Nosso desejo é pensar a respeito de Deus. Deus é um pensamento. Deus é um nome. Deus é uma ideia. Mas sua referência é a algo que transcende a todo pensamento. O supremo mistério de ser está além de todas as categorias de pensamento.
[...] As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente.”

Em suma, o que todos esses sábios estão tentando nos dizer é que não basta ler o manual de natação, é preciso mergulhar, pois o mergulho não pode ser descrito em palavras. Há um “deus” que é tão somente uma palavra, e há a experiência de Deus. Só quem passa por tal experiência, sabe...


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16.9.15

Human

O cineasta Yann Arthus-Bertrand passou 3 anos coletando histórias reais de mais de 2 mil pessoas em 60 países. Estes relatos pessoais com suas emoções, suas lágrimas e sorrisos, unem a todos nós. Em Human, um documentário monumental de mais de 4 horas, tais relatos são expostos numa determinada sequência que a princípio parece aleatória, mas depois, com o tempo, percebemos que segue um certo "fio da meada", e este fio nos conecta a todos, pelo coração...

Para além dos relatos intensos, profundos, e por vezes extremamente emocionais, tanto de anônimos quanto de famosos, ainda somos presenteados com belíssimas imagens aéreas de nosso planeta, que parecem dividir o documentário em pequenos capítulos próprios. De fato, uma boa forma de encarar essas mais de 4 horas é assistir tais trechos um por um, interrompendo a exibição após o final de uma sequência de imagens aéreas (se estiver logado, o YouTube salva o momento aproximado em que você interrompeu o vídeo):

Human, vol. 1

» Assistir a Human, vol. 2

» Assistir a Human, vol. 3


"Eu sonhei com um filme em que a força das palavras ampliasse a beleza do mundo. As pessoas me falaram de tudo; das dificuldades de crescer, do amor e da felicidade. Toda essa riqueza é o centro do filme Human. Esse filme representa todos os homens e mulheres que me confiaram suas historias. O filme se tornou um mensageiro de todos eles."

Yann Arthus-Bertrand

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Crédito da imagem: Human/Divulgação

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10.9.15

Jorge Pontual recita Rumi outra vez

Jorge Pontual é um dos jornalistas mais bacanas do mundo. Além de ser especialista em relações internacionais, ciências sociais, divulgação científica e bactérias, também parece ter sido o principal responsável por trazer ao programa GloboNews em Pauta um quadro semanal onde, vejam só, recita poemas de grandes poetas da história.

Por isso tudo ele já merecia a nossa admiração. Mas quando resolveu recitar Jalal ud-Din Rumi, então passou definitivamente a merecer o nosso amor...

Jorge Pontual recita Rumi no GloboNews em Pauta

(clique na imagem para abrir o vídeo no site da GloboNews)

***

[Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano]

Nem cristão, ou judeu, ou muçulmano,
nem hindu, budista, sufi ou zen;
nenhuma religião ou sistema cultural;
eu sou nem do leste nem do oeste,
nem do oceano nem do chão,
nem natural ou etéreo,
nem composto de elementos;
eu não existo.

Não sou uma entidade
neste mundo ou no próximo,
nem descendo de Adão e Eva
ou qualquer história de origem;
meu lugar é o sem lugar,
um rastro do sem rastro...

Nem corpo nem alma,
pertenço ao Amado.
Vi os dois mundos como um só,
e esse "um", chamo e conheço;
primeiro, último,
fora, dentro,
só este respirar de ser humano...


Jalal ud-Din Rumi (tradução de Jorge Pontual)


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8.9.15

Laboratorium Pieśni

Vivemos uma época de grande esquecimento. Mas, na eternidade, todos os cânticos antigos aguardam por ser rememorados... Que tal entrar nesta dança?

As beldades acima fazem parte do grupo polonês Laboratorium Pieśni. Estudantes de música, elas também se dedicam a pesquisar por canções folclóricas e tradicionais dos Bálcãs, Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Escandinávia, e muitos outros países ao redor do mundo. Com seus rearranjos musicais e belíssimo canto à capela, elas lembram muito o grupo brasileiro Mawaca.

Outra similaridade está no fato de, além de se dedicarem a música, vez por outra elas também encenam peças teatrais baseadas nas culturas antigas que têm estudado a fundo. Boa parte de suas músicas também são acompanhadas por instrumentos ancestrais, particularmente o tambor tradicional dos xamãs siberianos.

No vídeo acima, somos transportados para uma outra época, onde embora certamente houvesse um menor acesso a informação, muitas comunidades se achavam plenamente satisfeitas em poderem se reunir, de quando em quando, para cantar e dançar ao redor das fogueiras, ou pelos prados floridos, e assim simplesmente celebrar a existência. Abaixo, segue a tradução da letra original da canção, mas é preciso esclarecer que as letras, essas cascas de sentimento, são incapazes de realizar tudo o que a música faz:

Pelo mar, um mar azul
Flutuava um bando de cisnes brancos
E de onde teria vindo a águia acinzentada?

Ela dispersou o bando pelo mar azul
Penas brancas voaram ao céu
Penas cinzas pousaram no prado verde
E quem as colherá?
- Uma bela menina

Shtoy pa moru ("Pelo mar"), canção tradicional da Bielorrússia

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Indicação de Rato Saltador

Crédito da foto: Marta Obiegla

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4.9.15

Aylan

Primeira vez que vi anjinha foi em noite fria. Anjinha escorregou do céu e entrou em quarto de eu. Tinha vestido todo branco que nem a lua, e era tão bonita que nem mamãe. Papai e mamãe não gosta que eu vá para longe brincar com gente que não sei o nome, no parque e na rua e todo lugar. Dizem que quem a gente não sabe o nome pode ser homem mau e machucar eu. Mas anjinha não diz o nome dela.

Anjinha vai e volta de escorrega do céu ainda muitas noitinha. Como já conheço ela brinco com ela e tudo e não preciso saber de nome. Mas anjinha já sabia meu nome quando me viu primeira vez: Aylan.

Quando era bebê não sabia nada. Mas papai me diz que somos filhos do Curdão. Então eu cheguei no mundo lá em Babani, onde mamãe e papai e irmãozinho morava. Babani era lugar bonito cheio de criança que nem eu, e árvore e flor e parque e gente com sorriso. Assim eu fiquei grandinho e não era mais bebê, e achei que iria ficar para sempre ali com mamãe e papai e irmãozinho e gente amiga, no Curdão.

Um dia falei para mamãe da anjinha, e ela não gostou. Disse que essas coisa é de povo atrasado que não conhece Alá. Disse que Alá é maior que tudo e tem coração gigante que ama todo mundo. Disse que anjinha podia ser coisa da minha cuca, coisa que veio na cabeça. Não entendi mamãe nunca porque anjinha escorregava do céu, coisa que nunca vi nenhuma gente fazer. E nunca vi esse Alá.

Mas eu continuava crescendo e brincando de monte. Numa noite que tava ventando quente e fiquei olhando pro teto, anjinha apareceu e tava triste. Ela disse que ficaria tempos sem escorregar e vir a noite brincar comigo. Disse que mundo tava meio doido e que eu e mamãe e papai e irmãozinho logo teria de viajar pra bem longe. Que era perigoso, mas que ia cuidar de nós, e que um dia ela voltava para me ver. Fiquei triste de ver ela indo embora, não sabia quando ia ver anjinha de novo.

Um dia, muitos dia depois, acordei com um BUM. Papai entrou correndo no quarto de eu e irmãozinho e disse para gente ir pra baixo da cama no quarto de mamãe. Disse que era nova brincadeira que a gente ia fazer toda hora que desse um BUM. Tava com medo. Nesses dia e noite tinha muitos, muitos BUM, e a casa tremia toda que nem na história dos porquinho.

Assim foi muito tempo e eu e irmãozinho já não saia muito de casa. Em volta de casa tudo ficava cheio de pó e bem cinza, cheiro ruim! Não ia mais a parque, nem sabia se tinha parque ainda. Babani tava sendo atacada pelos homens mau do Isi. Papai falou que o povo do Curdão ia defender cidade e com máquina de fazer BUM iam fazer povo mau correr pra longe.

Eu tinha saudade de anjinha, mas não falava para mamãe nem papai porque eles já tava muito chatiado com tanto BUM que estourava em Babani. Mamãe chorava mais que irmãozinho. Eu não chorava porque meu pai falou que não era bom de homem chorar. E eu não era mais bebezinho.

No dia que papai chorou, foi porque tinha de sair de casa, sair de Babani e do Curdão. Papai pegou terra de Babani na mão e beijou, e disse que um dia a gente voltava, mas que a gente tinha de ir para a terra da titia, no Nanadá, para ter escola e parque e brincadeira para eu e irmãozinho de volta. Papai disse que a gente ia pra Tuquia e ia pegar um barco bem bonito na praia. Eu nunca tinha ido na praia nem andado de barco! Achei que anjinha tava enganada em preocupar comigo. Era muito bom fazer viagem depois de ficar tantos tempo em casa sem nada para brincar, com mamãe e irmãozinho chorando, e tanto BUM, BUM, BUM!

Assim a gente pegou camião cheio de pessoa que não sabia o nome. Mas papai disse que era tudo gente boa, que também tinha de viajar com a gente. Ali naqueles dia andando no camião com tudo tremendo, fiquei com fome e sede vez de quando, mas foi legal porque vi muitas terra de longe e conheci algumas crianças já maiores que eu. Algumas delas chorava vez de quando também. Não eu, porque sabia que anjinha tava de olho em eu, em mamãe, papai e irmãozinho.

A gente chego na praia. Que lindo o marzão. Nossa dava vontade de ir correndo lá no fundo até ver o que tinha do outro lado. Mas papai disse que eu não podia andar na água e que afundar era perigoso e coisa assim. Disse que para a gente andar em cima da água tinha de ir de barco.

Mas quando chego o barco papai ficou muito chatiado. Disse que era barquinho pequeno demais para toda a gente. Mesmo assim a gente foi. Eu gostei porque nunca tinha ido de barco, e tremia menos que camião. A gente toda apertada em barco era que nem brincadeira em parquinho com todas criança na areia. No começo as onda balançava a gente mas não muito, e assim foi indo e indo e indo, e já quase não via nem praia nem Tuquia nem Babani. Tinha saído do Curdão e indo pro Nanadá.

Depois as onda começou a balançar demais a gente. Teve gente que fez coisa feia e cuspiu comida para fora. Mas eu não fazia isso porque sabia que era coisa feia. Assim foi indo toda a gente no barco, cheio de medo. Irmãozinho começa a chorar e muita gente começa a reza para Alá. Mas eu não sei reza e daí eu só lembrava da anjinha que disse que ia cuidar de nós.

Então o barco viro e caí na água gelada do mar. Tava gelada demais e não lembro direito o que passou. Lembro que papai gritava e tentava segurar eu e irmãozinho e mamãe, mas não deu para ele segurar nós tudo porque vinha muitas onda, sobe e desce de onda enorme no mar. Assim eu nem senti direito quando escorreguei que nem fazia a anjinha, só que de baixo pra cima.

Escorreguei do mar para o céu e lá tava a anjinha e um pavão bem bonito. Não dava para entender em que casa eu tava, nem se anjinha tava triste ou feliz. Anjinha tava é preocupada com resto de nós que ficou no mar. Eu não, porque tava bem melhor ali do que na água gelada, e sabia que anjinha ia ajudar mamãe e papai e irmãozinho a chegar no Nanadá.

Eu não, eu não queria ir pro Nanadá ver titia. Queria ver anjinha, então para mim tava bom. Mas eu queria saber só uma coisa, então disse pra ela:

“Mas por que homens mau do Isi vem e faz maldade em Babani se nós nunca fez maldade para eles?”

Assim, anjinha deu sorriso que nem os tempo que vinha de noite escorregar no meu quarto e me disse:

“Aylan, eles se esqueceram a tempo demais como é ser criança...”


raph’15

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O documentário Kobani Vive traz o olhar do fotógrafo brasileiro Gabriel Chaim sobre as ruínas de Kobani, a cidade curda que derrotou o Estado Islâmico, perto da fronteira entre a Síria e a Turquia. Através dele, podemos imaginar porque o pai de Aylan Kurdi decidiu fugir de Kobani, onde vivia, para tentar alcançar sua irmã no Canadá:

» Assista Kobani Vive

Crédito da imagem: Khalid Albaih

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2.9.15

Sapiens

Nesta contundente palestra para o TED Talks, Yuval Noah Harari, um proeminente professor de história israelense, tenta responder a pergunta: “Como nos transformamos de primatas insignificantes, que cuidavam de sua vidinha em algum canto da África, em soberanos do planeta Terra?”.

Antes de assistirem o vídeo abaixo, no entanto, é preciso tentar compreender como um historiador jovem (39 anos) conseguiu escrever um dos melhores livros do século 21, Sapiens, no qual se baseia sua palestra.

Ora, para início de conversa, já é revelador o fato de Harari começar a explicar a história humana, o mote de seu livro do início ao fim, pela parte em que ela sequer era registrada, isto é, antes do advento da escrita. Harari é afinal um pensador que se interessa pelas “grandes questões” do pensamento humano, e “como conquistamos o planeta?” é somente uma delas...

Dentre algumas outras, poderíamos citar: “Por que nossos ancestrais se reuniram para criar cidades, reinos e impérios?”; “Como passamos a acreditar em deuses, nações e direitos humanos?”; “Como aprendemos a confiar no dinheiro, em livros e em leis?”; ou ainda, “Como fomos escravizados pela burocracia, pelo consumismo e pela incessante busca da felicidade?”.

É tentando responder a tais questões que Harari vai muito além do âmbito “ortodoxo” do estudo histórico, e trata de biologia, psicologia, filosofia, mitologia, economia, política e sociologia com a mesma naturalidade com a qual o seu antigo professor falava de Revolução Francesa.

Além de ser extraordinariamente bem escrito, Sapiens não se limita apenas a descrever a história, como nos leva a refletir sobre o que ocorreu no passado, sobre como isso influencia o presente e o futuro e, sobretudo, sobre como as “narrativas tradicionais” muitas vezes são falhas, ou por contarem somente “a história dos vencedores”, ou pelo fato de ignorarem solenemente o nosso mundo interno, subjetivo, e a enorme importância que a linguagem e as ficções humanas exercem e exerceram sobre os eventos históricos.

A única fronteira que Harari se recusa a ultrapassar é o limite da ortodoxia acadêmica em relação às crenças. Apesar de elogiar o budismo, a sua postura para com as religiões é por vezes excessivamente ácida e superficial, pois apesar de ele basear boa parte de sua tese sobre a evolução humana em torno das mitologias da mente, em nenhum momento ele chega a tentar analisar o tema do ponto de vista místico. Mas se além de tudo o que já sabe, Harari ainda fosse um místico, seria talvez pedir demais para uma única mente.

Felizmente, existem outras mentes que podem complementar as reflexões de Sapiens; mas tal livro se encontra num patamar tão elevado que só me vem à cabeça gente como Joseph Campbell, Mircea Eliade e Alan Moore...

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Y. N. Harari)

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