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22.8.17

Ilusionismo e Política - Os Empréstimos Subsidiados

A política, em grande parte, é a arte de mobilizar as pessoas de modo a atingir seus objetivos. Durante a história do Brasil uma coisa é unânime, os políticos sempre fizeram todo o possível para enriquecer os seus aliados às custas da maior parte da população.

Porém a única forma garantida de redirecionar os recursos sem despertar a revolta geral é através de um modo que a grande maioria sequer perceba o que está acontecendo.

Para tal existem duas formas principais: as contratações de empresas para fazer grandes obras públicas e os empréstimos subsidiados.

A primeira, que já está aparecendo nos escândalos da operação Lava-Jato e similares, já não é tão invisível para nós (apesar de incrivelmente quase ninguém reparar fazem apenas alguns anos). Já a segunda ainda não percebemos direito.

Como Miriam Leitão explica bem em seu livro A Saga Brasileira, sobre a história da inflação no Brasil, por muito tempo a principal forma dos grandes proprietários de terras ganharem dinheiro sequer era plantando, mas sim pedindo empréstimos subsidiados para os outrora numerosos bancos públicos.

O truque era o seguinte: se pedia um empréstimo para um banco público com taxa de juros de, por exemplo, 15% ao ano. Como a inflação era de mais de 200% ao ano ninguém em sã consciência emprestaria dinheiro por tal taxa, já que receberia no final um valor real muito menor do que emprestou. Mas com a justificativa de “estimular a agricultura” (e outras similares) os bancos públicos forneciam esse tipo de empréstimo em grande quantidade e volume.

Independentemente do que fosse feito com o valor adquirido (fosse realmente plantar ou aplicar no mercado financeiro) o empréstimo era facilmente pago, pois com a alta inflação a dívida final era muito menor do que a inicial. Ninguém podia dizer que estavam roubando, uma vez que para a grande maioria da população “um simples empréstimo é diferente de roubo”. Assim se transferia riqueza de maneira praticamente invisível e transparente.

Alguns beneficiados chegavam ao cúmulo de sequer pagar o empréstimo depois, pois sabiam que os governantes não teriam coragem e força política para cobrá-los. Desse modo os bancos públicos tinham enormes rombos, que eram maquiados pela alta inflação e um esquema bizarro de contas internas, como a famigerada “conta-movimento” do Banco do Brasil, que na prática permitia que ele emitisse dinheiro diretamente, sem limite.

Claro que essa prática aumentava ainda mais a inflação, o que mantinha um círculo vicioso que destruiu a economia brasileira por muitos anos.

Com o Plano Real e muita briga política essa prática foi parcialmente diminuída, até que voltou com toda a força através dos empréstimos do BNDES.

O BNDES capta dinheiro do Tesouro Nacional (ou seja, da dívida pública) e empresta a aliados políticos por uma taxa bem menor, fazendo com que na prática a dívida pública alimente os amigos dos governantes.

Durante o governo Lula, em especial, as torneiras foram abertas e um grande volume de crédito foi distribuído, sendo parte da explicação para o alto nível de popularidade do governo em todas as esferas da sociedade. Claro que se você não era um aliado político você só viu esse dinheiro de segunda mão, seja pelo aquecimento artificial da economia ou pelo crescimento da empresa em que você trabalhava.

Em alguns casos bizarros, como o da Grendene, o empréstimo foi tão grande que a empresa não encontrou nem como investir o dinheiro, e como não pode distribuí-lo para os acionistas ele fica simplesmente aplicado no mercado financeiro até hoje, rendendo mais do que seu custo de captação. Curiosamente os rendimentos podem ser distribuídos.

A transferência de riqueza através do crédito subsidiado em geral ainda é desconhecida do grande público, mas aos poucos está sendo combatida, novamente com muita resistência. Uma das iniciativas é a mudança da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) do BNDES para a TLP (Taxa de Longo Prazo), que ainda está sendo negociada no congresso e diminui o subsídio igualando o custo de captação com o custo do empréstimo.

Enquanto não entendermos como a política e a economia realmente funcionam seremos iludidos achando que estamos levando vantagem quando na verdade podemos ser os grandes prejudicados da história.

Gustavo Rocha Dias é um apaixonado por entender como o mundo funciona, o que o levou a se aprofundar em tecnologia, economia e filosofia. Você pode acompanhá-lo no Facebook.

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Comentário
Sim, após mais de uma década de blog, esta é a primeira vez que temos um colunista, o que também significa que o Gustavo pode e deve voltar a escrever por aqui.
Um motivo: desde as manifestações de Junho de 2013 no Brasil, tenho gradativamente me interessado mais pela Política, muito mais num sentido de tentar auxiliar na mediação de debates mais produtivos e interessantes do que propriamente para defender exclusivamente este ou aquele ponto de vista.
Outro motivo: o Gustavo sempre me surpreendeu pelo conhecimento de política e economia que demonstrou em nossos diálogos e debates nas redes sociais; e, após alguns anos, finalmente achei um tema bom o suficiente para inaugurar sua coluna. Bom porque trata de um assunto que vai além da polarização usual de esquerda vs. direita; bom, também, porque ele entende muito mais de economia do que eu, e pode trazer ao debate algo que eu não saberia trazer com a mesma profundidade. Espero que seja proveitoso!

raph

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Crédito da imagem: Rafael Andrade/Folhapress

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8.8.17

O sangue eterno

Quantos poetas sangraram
para lhe fazer ouvir?
Quantos loucos captaram
seus versos de ventania,
e preencheram de vermelho
suas almas em branco?

Há uma marcha imemorial
por entre bosques e jardins,
que segue rios e corredeiras,
vence abismos e precipícios
e deságua em êxtase,
no oceano de corações frios
deste reino de chumbo...

Sim, ó senhor, ninguém sabe
de onde surgiu a fonte da poesia;
sabe-se apenas que jorra até hoje,
e que se olharmos com atenção
veremos: o mundo nunca esteve seco!

Como soldados que jamais se alistaram
para guerra alguma,
seguimos pé ante pé
com nossos fuzis de tintas,
de olhos e espíritos bem abertos,
sangrando de livre e sofrida vontade.

E este sangue que cai
salpica de cor rubra
mesmo aos bairros mais cinzentos da cidade:
cada gota marca para sempre um ponto
no tempo e no espaço.

Sim, ó senhor, seja em Konya,
Bsharri, Lisboa, Calcutá,
ou mesmo aqui, no Real Jardim Botânico
do Rio de Janeiro,
este sangue eterno
jamais secará.


raph'17

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Crédito da imagem: Google Image Search

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